Interlúdio ~ Sobre a Maldição Parasita


- As pessoas não sabem o que é ter medo. Elas realmente não sabem o que é. É pior do que um inimigo a sua frente. É um inimigo que surge de toda parte. De dia, de noite, no semblante de um estranho ao rosto inocente de um amigo. É algo que você não vê, mas está a sua volta o tempo todo. E quando você menos espera, ele surge do nada e te devora. Pior. Ele faz com que você se devore, se destrua. A si e aos poucos que tentam te ajudar.
- Poucos?
- Sim. Poucos. Poucas são as pessoas que se importam. Às vezes nem é culpa delas. Todos têm problemas, logo, não tem tempo para ouvir sobre seus. E aí você tenta enfrenta-los sozinho, pois quando você fala de seus medos, as pessoas se afastam. Elas não podem fazer nada, e nem ao menos tentam.
- Mas por quê?
- Porque pessoas querem estar com pessoas que as façam felizes. Ninguém quer ficar perto de alguém problemas ou triste. Ninguém se pergunta se essa pessoa precisa de um abraço. Não, este mundo diz ao amaldiçoado pelo medo que ele não tem tempo pra isso. Que se ele tivesse o que fazer, não sofreria. Que basta só ele não pensar. Não se lembrar daquilo que o levou a ser tragado pelo medo. Só que as coisas não são assim.
- Mas essa maldição tem forma...?
- Depende da pessoa. Eu já vi uma... É como se fosse uma marca com cor-de-sangue alojada nas suas costas. Não é uma cicatriz. Ela tem volume e peso. Ela fala. Ela te sussurra no escuro. Quando você acha que está livre, ela cresce e estrangula sua coluna, a ponto de impedir você de andar.
- Então... A pessoa fica presa na cama?
- Ou em seus próprios pensamentos. Mas o pior é o que ela te faz fazer. Essa maldição toma conta do seu corpo e das suas palavras. Aí, seu espírito fica aprisionado em seu próprio corpo, assistindo incapaz seu medo em forma de maldição assumir todos os seus movimentos.
- Como assim? O que ela te obriga a fazer?
- Ela te impede gritar. O faz se isolar. Ela faz você se afastar dos poucos que o amam de verdade através de palavras que você jamais as diria. Ela te transforma numa fera acuada e em pânico, sangrando numa caverna escura e lodosa, cuja menor aproximação, a fera rosna e afasta até o melhor e mais paciente curandeiro. A maldição do medo o faz destruir quem te ama e te faz se destruir. Família, amigos, sonhos... Tudo é perdido. Você não consegue mais enfrentar tanta coisa. Você atingiu o ápice do vazio.
- Isso é horrível... Mas ela tem que ter cura!
- Doenças do corpo tem cura. Se não tem, você encontra, seja daqui a um ano ou um século. Mas a maldição do medo... Ela não tem cura. Ela faz você se devorar e se destruir. Ela vai torna-lo cada vez mais solitário e em pânico. Ela vai fazer você confundir um amigo com um inimigo. Vai fazer com que você se devore para ela, como um parasita. E quanto mais você afunda, mais você se odeia, porque não consegue enfrentá-la. Você se torna então um fracassado. E este mundo não tolera os fracassados.
- E como isso termina?
- Sua existência se apaga, deixando uma casca vazia. Aí acontece o mais engraçado... Aparecem pessoas de toda parte se dizendo arrependidas por não ajudar ou surpresas por nunca imaginar que alguém, que passava uma imagem tão forte, fosse capaz de se destruir.
- Mas... Ninguém tem culpa...
- O mundo está cada vez mais rápido e egoísta. As pessoas que deveriam se aproximar, estão se afastando. É solitário.
- Você fala como se conhecesse alguém que está passando por isso.
-...
- Quem é essa pessoa?
Uma pausa. Um suspiro.
- É uma pessoa que nasceu com o dom de fazer as pessoas voarem. Ela até tem o poder de voar, mas não consegue mais. A marca da maldição parasita em suas costas já ocupa e estrangula suas asas, embora, ele não permita que outros a vejam.
- E essa pessoa pode ser salva?
-... Eu não sei... Mas preciso tentar!
Domingo, 9 de agosto de 2015.
 --- // Este texto não faz parte oficialmente do livro Aika - A Canção dos Cinco.  //---
Trata-se de uma reflexão interpessoal,  um diálogo interno sobre talvez o maior inimigo de toda a saga de Aika - e talvez de muitos de nós. Eu a trago aqui para que você também reflita; e o preparo discretamente para o tão aguardado encontro de Aika, quando ela finalmente ficará frente-a-frente com Kurikara, o herói amaldiçoado.

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